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Internado no Hospital por Extraterrestres: Covid-19

Caros amigos, estou bem. Estou vivo e, descansem credores: juro que vou continuar a pagar as minha dívidas. Estive 5 dias internado no hospital Fernando Fonseca – Amadora Sintra com sintomas de tosse e febre alta. Estive em isolamento, suspeito de infecção de Coronavirus. Depois de raptado, preso, “violado”, torturado e, após 2 testes negativos ao covid-19, saí do isolamento e, aí sim, tive direito a um médico e a uma “porrada” de exames mais detalhados. Após muitas “seringadas” de sangue roubado para análises, lá detectaram uma infecção pulmonar e diagnosticaram-me uma Srª pneumonia. Digo, Srª pneumonia porque a infecção já estava avançada e daí, considerada uma pneumonia requintada. Na verdade, no diagnóstico estava escrito: “Pneumonia da comunidade. Pelo nome, não sei se me sinta solidário ou se me revolte contra ela. Mas esta história é insólita e bem humorada. 

Fotos engraçadas para tranquilizar a família:

covid-19 - hospital
As fotos que se seguem contam a história das mensagens enviadas à família por whatsapp.
PS *As fotos foram tiradas com a responsabilidade em respeitar os doentes vizinhos; a privacidade de todos e não retrata o ambiente hospitalar.

Naturalmente, a família e chegados estavam preocupados em dobro: pela minha hospitalização e pelo risco em contrair o vírus covid-19. Para acalmar os “dramatismos” dei asas à criatividade, tirando fotos engraçadas para retratar os pontos da minha situação, e apaziguar a preocupação familiar. Não julguem que o meu estado foi ligeiro, ou vivido num ambiente de gozo… Confesso que, tive a minha dose de sofrimento, paciência e preocupação com a minha saúde. Para aqueles que me conhecem mais de perto, fica a mensagem: “Não meus amigos, não estive na ala psiquiátrica. Ainda não foi desta!”. Mas, considerem-me louco o suficiente por, encontrar um pouco de positivismo num ambiente desolador. Um pouco de resiliência no meio do caos, por mim, pela minha família e chegados.

isolamento coronavirus
DIA 1 – 11h35 “Oi. Estou em isolamento. 40Cº de Febre. Já me podem dizer: “Estás uma Brasa!”
😏 Vou tentar descansar.”
Dia 1 – 17h05 – “Oi. Estou no intervalo do febre. Devia buscar umas “jolas” para o churrasco que vou fazer mais logo. Espero fazer brasas com 39,5Cº. 🔥🤯

A história insólita da saúde 24 e da consulta médica online:

Já que o whiskey não provou ser um medicamente infalível e, como não gosto de bagaço, tive de procurar outras medidas de cura. Aconteceram coisas insólitas como estar a telefonar vários dias seguidos para a saúde 24. Inclusive, um dia estive 6h ao telefone e fiquei na mesma sem respostas concretas nem um conselho de rumo a seguir. Recorri ao seguro de saúde. Pedi uma consulta on-line com um médico para evitar a ida às urgências. Já antevia que seria uma infecção pulmonar e precisaria de antibióticos e, mesmo a pedido, a médica não quis receitar além de benuron para a febre e Milid para a espeturação. Compreendo que, o antibiótico e o coronavírus não são “compatíveis” mas a médica não quis arriscar, nem me aconselhou a ir fazer o teste do coronavírus. – “Fica em casa isolado”. disse a médica. Até parecia boa ideia estar isolado da minha mulher uns tempos mas, no dia seguinte e, já com 2 semanas de agonia, “peguei nas perninhas” e fui à urgência hospitalar Amadora Sintra.

Dia 2 – “Quero agradecer veemente ao Sr. Dr. Silva Nuno por prestar a atenção devida a todos os utentes deste hospital. 👨🏻‍⚕️ Alguém precisa de uma baixazinha médica? ✍️”
Dia 2 – “A vitamina C é benéfica ao combate da gripe? Neste momento, o Sr. Dr. Silva Nuno analisa se esta questão é, na realidade, um facto ou um mito.” 🍊
Dia 2 – “O braço esquerdo está alugado à heroína do hospital… (a uma enfermeira, ok?). Mas se tiverem alguma coisinha para o braço direito ainda dá!”. 💉

Pânico na Urgência – raptado por extraterrestres:

Deram-me uma pulseira verde que combinava com a minha roupa. Fui examinado por uma médica que mais parecia uma extraterrestre, toda plastificada dos pés à cabeça. Fez-me umas perguntas, mediu a tensão e o febre. Nada de grave se avizinhava até ao momento em que a médica disse: “- Olha, está aqui pouca gente (estavam 3 pessoas) por isso vais fazer um raio x.” Poucos minutos de sair do Raio x, surge na sala de espera uma equipa de 4 enfermeiros, ou 4 médicos, ou 4 extraterrestres (não dá para distinguir porque estão todos embrulhados em plástico azul). Um deles aclamou o meu nome em alta voz, grossa e autoritária como um polícia quando grita ao criminoso: “Alto! Mãos no ar”!. – “Eu?!”– respondi um pouco atarantado…
Enfiaram-me numa sala. Todos em alvoroço. Enquanto falavam todos  em simultâneo: enfiaram-me cotonetes pelo nariz, cotonetes pela garganta abaixo, tiraram-me seringas de sangue, fizeram-me perguntas sem eu ter tempo para responder, enquanto um deles explicava o procedimento: Não toque em nada. O casaco fica neste saco. Vai ficar internado. Está alguém consigo? Mantenha as mãos sobre os joelhos. Abra boca. Tem falta de ar? Quantas pessoas são na família? Vai ter de ficar em isolamento. Não toque em nada. Feche a mão com força para inserir o cateter. Não pode receber visitas. Esteve no estrangeiro? Teve contacto com alguém infectado? Mantenha as mãos sobre os Joelhos. Não toque em nada.” . – “Caramba!! Não posso tocar em nada?! logo hoje que tencionava surripilhar uma dúzia de máscaras para vender a bom preço lá fora!”– Pensei eu! Embrulharam-me num lençol, literalmente. Sentaram-me numa cadeira de rodas e levaram-me, em passo bem apreçado pelo labirinto de corredores. A cadeira de rodas guinava nas curvas e sentia o vento na cara: – “Valha-me Deus, ou estou numa prova de rali, ou apanhei um taxi nos restauradores ou a moça está a aproveitar para fazer um jogging”. Ela gritava continuamente o código dissimulado: “Por favor, deixem passar o Nuno, piso 5! Deixem passar o Nuno, piso 5.”. Nunca me senti tão imponente, sentado numa cadeira de rodas que mais parecia uma cadeira do inem onde a  moça fazia de sirene humana! – “Por favor, deixem passar o Nuno, piso 5! Deixem passar o Nuno, piso 5.”. Os enfermeiros encostavam-se às paredes caso não estivessem perto de uma porta para se refugiar numa sala. As camas dos doentes entravam pelas salas adentro para eu passar. Fecharam-me num quarto com uma cama. E não se ouviu nem mais um pio…
Conclusão: Tirando a parte divertida do rali-táxi-inem no carrinho de rodas com 40ºC de febre, confesso que, fui raptado por extraterrestres. Fui “violado” nas cavidades do rosto, interrogado sem direito a defesa, torturado e raptado sem escrúpulos por mascarados, cuja seita não consigo identificar, porque eram um grupo de profissionais organizados que só lhes via os olhos. Os  corpos deles estavam envolvidos numa longa cobertura azul. Possivelmente eram avatares. Avatares extraterrestres. Avatares extraterrestres azuis, possivelmente apoiantes do FC. do Porto.

Dia 3 – “Hoje, mudei de quarto com direito a cadeira pessoal. Atribuíram-me o cargo de psicólogo. Até ao fim do dia é provável que atenda 4 utentes novos que estão a caminho para este quarto.” 🧐
Dia 3 – “Sou residente n’amadora pá, é tude chêio de style, mais o meu fate de treine tás a ver, puto?! A máscara é mais pa não ser ver o snife, captou bro?! Gand’onda chevále! Crazy, Yóh!” 😎
Dia 3 – “Como degustar um prato Gourmet no restaurante do Fernando Fonseca:
Passo 1: Admirar a composição visual; aspecto.”
🤭
“Passo 2: Admirar o prato através do sentido olfativo: Cheirar.” 🤢
“Passo 3: Colocar a máscara e respire devagar. Inspire… expire… inspire…”🤮

Isolamento e os doentes do Covid 19:

Fecharam-me num quarto. Deu para perceber que colocaram um carrinho cheio de material farmacêutico encostado do lado de fora da porta. Naturalmente, o meu aspecto não era dos melhores: com a barba por fazer, mal apresentado, cara de esgrouviado. E provavelmente, o carrinho encostado à porta seria para não fugir pelos corredores afora… todo nú. Isso seria constrangedor e até perigoso para a estabilidade do hospital: ora se assustariam com a minha nudez e seria o pânico total; ou se apaixonariam pela minha nudez e seria como um cantor de rock que foge dos seus fãs.
Febre, tosse, suores… Limpei em círculo, o vidro da janela que estava esbranquiçada pelo desinfetante. Deu para ver a paisagem e as janelas dos outros, alguns quartos dos pacientes, a sala de médicos e enfermeiros. Mal fui examinado nos 2 dias de isolamento e pouco contacto tive com os enfermeiros. Após 2 testes negativos ao covid 19, transportaram-me para a unidade de cuidados intensivos de pneumonologia. E foi aqui, enquanto esperava no corredor para ser transportado, que deu para ver a realidade da situação dos infectados do Coronavirus. Não imaginam a visão daquele corredor infinito cheio de salas: o esforço dos funcionários de saúde perante o esforço da respiração dos doentes. Doentes de barriga para baixo, ora de barriga para cima, a oxigênio, de ventilação assistida… É uma visão assustadora. Não menosprezem a mensagem dos media. Respeitem as medidas da quarentena. Sejam responsáveis. Fiquem em casa. 

Dia 4 – “Bom dia. Hoje acordaram-me às 6h da manhã suplicando que coloca-se a máscara. Pensei que fosse pelo coronavirus, mas não. Não lavo os dentes à 4 dias… 😬
Dia 4 – “As enfermeiras informaram-me que os médicos me dariam novas indicações. Aguardo ansiosamente.” 😶
Dia 4 – “Eis as notícias das enfermeiras: “Barba Negra, vais do 5º andar para o 3º andar de medicina geral.” Pulei da cama e disse: – Nada me teme! AVANTE !” 🤩
Dia 4 – “Depois de um combate de corpo e alma. Rambo quer ALTA.
JÀ !” 🤬

Cuidados Intensivos e a horrível realidade:

Nos cuidados intensivos a visão era infernal e mórbida. Fiquei num quarto de 4 camas na ponta do corredor, um pouco afastado dos outros. Ali, fica-se com a consciência que, provavelmente salvar-se-iam 1 a 2 pessoas naquele quarto. Uns vomitam, outros gemem, outros não conseguem respirar e, eu com ataques de tosse severa… Os enfermeiros ainda equipados dos pés à cabeça, vestem e despem-se sucessivamente. Uma enfermeira desmaia com o calor que o equipamento provoca.
As noites foram insuportáveis. Há pessoas que sofrem com gemidos altíssimos. Outras lutam pela vida em silêncio. Nos corredores ouvem-se sons constantes dos enfermeiros. Ouvem-se nomes de códigos. Ouve-se o chão a tremer da correria dos enfermeiros com aparelhos com rodinhas que deslizam freneticamente. Ouve-se o tilintar das garrafas de oxigênio que um homem tranquilamente as amontoa no corredor. Contei 44. 

Dia 5 – 🎶 “The photo shows, I took the blows “🎵
Dia 5 – “🎶 But i did it 🎵”
Dia 5 – “🎶 My Way.. yyy ! 🎵
Dia 5 – “Oi. Prometeram-me alta hoje. Traz o pópó para ir casa!” 🚘

Deram-me alta e uma baixa – perderam as minhas calças:

Ao quarto dia fui transportado para a medicina geral. Um ambiente tranquilizador. Comparado com o que vi no 5º andar, o ambiente era típico de uma colónia de férias… vá, um lar de idosos numa colónia de férias. Tive sorte em fazer amizade com o doente Rui Quintas. Um guerreiro que já venceu várias batalhas na saúde. Partilhamos gostos e dissabores. Foi maravilhoso poder tomar um duche decente e escovar os dentes com uma esponja. Sim, uma esponja na ponta de um cotonete. É uma experiência tão boa como se tivesse lavado os dentes com um pente! Finalmente, seria o fim da comida sem sal e o fim da habitual diária acompanhada com puré de batata líquida.
O médico deu-me alta e a enfermeira deu-me baixa das calças. “Não encontramos as tuas calças”! – disse ela. “Não há problema, eu vou embora de qualquer jeito”! – disse eu. Era hora de almoço e só queria sair dali. Lá me arranjou um uniforme. O único disponível. O de médico. Azul. Pensei: “Tirar o curso de medicina em 5 dias bate o record do Relvas e do Socrates!”. Indicaram-me o caminho da saída e vim pelo próprio pé. Encontrei o segurança na porta da rua que imediatamente me abre a porta dizendo: “Boa tarde, Sr. Doutor”. Logo retorqui – “Obrigado. Boa tarde!” E respirei uma lufada de ar fresco como um preso respira quando sai da prisão! LIBERDADE !! 

Dia 5 – “F@dY-s€ !! Perderam as minhas calças! Vou embora nem que seja nú!” 😱
Dia 5 – A minha saída triunfal com um uniforme de médico interno. 😎 ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️

Situação actual:

Raramente fico doente. Mas, quando fico, fico mesmo K.O. Estou lentamente a recuperar. Preocupado com o perigo do coronavirus que espreita a minha vulnerabilidade momentânea. Obrigado a todos que me enviaram mensagens de força e coragem. E a todos, um bem hajam.
Fiquem em casa, por si e pelos outros.

Um abraço para todos os profissionais de saúde.

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